Aguarde uns segundos que os elementos de imagem e de som se implantem.

16.01.2008 - Nº. 1 = O PRINCÍPIO

------Ser pendular em vai-e-vem contínuo, como relógio de parede ou de mesa, é algo que desafia as nefastas tendências irregulares que se disfarçam quanto podem para suplantar, atacando, o defensivo arco-íris do subtil camaleão que apenas pretende sobreviver lançando sua elástica língua em busca de insectos incautos.
------É difícil, muitíssimo difícil para o raciocínio humano a adaptação à regularidade donde emana o ditado de «água mole em pedra dura tanto bate até que fura». Tão espectacularmente difícil é logo que memoricamente se constata quantas vezes o relógio de sala se quedou por falta de corda. É também difícil, por muito curto que seja, fazer um apontamento diário com estreita e rigorosa sequência.
------Defronte pois à nuvem parda que doravante se me deparará e ainda por cima na Internet, inicio hoje, 16 de Janeiro de 2008, um voluntarioso diário sobre o facto ou pensamento que em cada dia mais me cativarem.
Assim, acabado de nascer e apenas com 85 dias de vida, verifico e registo que o jornal gratuíto «Global» se ufana sob a seguinte proclamação por baixo do título: «O diário de maior tiragem em Portugal».
------Posta esta minha singela iniciativa, com o televisor íntimo sintonizado algures na perspectiva dos dias que me restam, vejo, à guisa de Euronews, uma multidão de sistemáticos trapaceiros a debater-se sob a legenda: «Sem comentários».

17.01.2008 - Nº. 2 = LEVARAM-TE AO MEIO DO BANHO...

------Quando o nosso actual primeiro-ministro, liderando de fresco o PS, apresentou em eleições legislativas a promessa de criar 150 mil empregos, nunca pela cabeça me passou - a quem passaria? - que um tão benquisto desiderato passava também e culminaria na absurda realidade, que cada vez mais sub repticiamente incisa, desponta na recriação de estranhíssimos agentes: (p)odem (i)ntervir e (d)eliberadamente (e)scarafunchar. Quem conceberia que as tratadas circunstâncias se modificariam em tão pouco tempo?
------Estou a ler, em gratuíta globalidade, que os «ginásios estão contra os fiscais de cacifos e clientes», e logo os ginásios, recintos onde «saudáveis» utentes deixam roupa e objectos num lado e vão singelamente de camisola, calções e ténis para outro, prontinhos a dar tudo quanto têm em suores frios e quentes. Terminada a ginástica, aplicam-se uns milhares de litros de água na expurga da sueirada toda. Entretanto, acabo de ouvir radiofonicamente uma ciosa senhora, muitíssimo bem informada, declarar que uma torneira mal fechada ocasiona um desnecessário prejuízo, intuindo-me a ideia de que há prejuízos necessários.
------Verifico ainda que a balela da «polícia próxima do cidadão» está na entusiástica e expansiva aplicação de câmaras de vídeo que de forma alguma colocam em causa o normalíssimo trânsito dos cidadãos. Quanto a mim e no óbvio sentido das necessidades inevitáveis, estão a esquecer-se dos milhões de sanitários e, entre eles, do celebérrimo das Antas. Numa tal perspectiva, ocorre-me repescar uma de excelente autoclismo que outrora deu perfumado brado, embora adaptada às circunstâncias que estão sempre a merecer outro tratamento (Quem lhe terá lembrado e posto esta na agenda?):

Aqui, a sério e sem troça,
toda a vaidade se acaba:
o valente tem mais força
e o covarde é quem paga.

18.01.2008 - Nº. 3 = «CAINDO, CAINDO SEMPRE, E SEMPRE, ININTERRUPTAMEMTE...»

------Mal o meu raciocínio bateu no deles, um atrás do outro, também desde logo me deixei fascinar pela humanidade e saber que me inspiraram. Em princípio Galileu, no 1º. ciclo dos liceus, e depois Gedeão, no 2º. ciclo, ambos ao lado de Einstein e de Walt Disney, meus ídolos intelectuais sempre que me dava para exibir meu jovem discernimento. Mais adiante, logo que se me deparou o protentoso poema que iluminava a heróica vítima das trevas inquisitoriais, a coincidência mais ainda sedimentou as minhas admiração e vénia.


«ELES NÃO SABEM QUE O SONHO...»

------Bento XVI, em inopinado anúncio divulgado há dias, cancelou a visita à Universidade romana La Sapienza em face dos indignados protestos de professores e estudantes criticos pela postura do pontífice em relação à ciência e à condenação de Galileu Galilei.
------A decisão desconcertou e preocupou a opinião pública italiana, gerando uma avalanche de reacções por parte de jornalistas e personalidades que defendiam o «direito de o papa falar», embora o cancelamento da visita fosse da sua estreita iniciativa.
------No texto em que se justifica, Bento XVI não aborda a pena de morte, tema escolhido para a abertura do ano académico, mas lembra que La Sapienza «era a universidade do papa e hoje é uma instituíção laica, livre de autoridades políticas e eclesiásticas». Felizmente.
------La Sapienza é uma das maiores instituições públicas da Europa, fundada por Bonifácio VIII no ano de 1303 e conglomera actualmente mais de 100 mil estudantes.
------No seu discurso, o que seria proferido na universidade, o papa admite que «não vai tentar impor a fé de forma autoritária»...
------Claro que não (ou sim?), senhor Joseph Alois Ratzinger. Os «Galileus» do mundo em decurso multiplicaram-se e têm a convicção que o seu mestre foi inexcedivelmente perfeito. Entretanto, desde sempre e antes de Deus, a terra movia-se, move-se e continuará a mover-se indiferente às lástimas da inteligência.

POEMA PARA GALILEU

------Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano. Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
------(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios).
------Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
------Eu sei… Eu sei…
------As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileu Galilei! Olha. Sabes? Lá em Florença está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá!Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.
------Eu queria agradecer-te, Galileu, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhões de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar, que disparate, Galileu! E jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a menor hesitação que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são. Pois não é evidente, Galileu? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? Esta era a inteligência que Deus nos deu.
------Estava agora a lembrar-me, Galileu, daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua frente um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente. Estavam todos a ralhar contigo, que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se tivesse tornado num perigo para a Humanidade e para a civilização. Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das suas alturas e poisaram, como aves aturdidas (parece-me que estou a vê-las) nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas. E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia-noite louvores à harmonia universal. E juraste que nunca mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e descrevias para eterna perdição da tua alma.
------Ai Galileu! Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, andavam a correr e a rolar pelos espaços à razão de trinta quilómetros por segundo. Tu é que sabias, Galileu Galilei.
------Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade. Por isso estoicamente, mansamente, resististe a todas as torturas, a todas as angústias, a todos os contratempos, enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, foram caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na razão directa do quadrado dos tempos.

António Gedeão - Rómulo de Carvalho

19.01.2008 - Nº. 4 = AH... É, É ISSO, É O ADAMASTOR!...

Enunciado:

------Se sei pegar no pau de dois bicos?... Oh... Sei, sei e quanto baste. Sei até parti-lo a meio e arranjar mais umas dezenas de bicos em cada ponta. Só que, por condição, não fui destinado a passar à prática permanente após a primeira experiência. Não me cai «à l`aise» por dentro...
------De resto, este pedagogíssimo texto, é, é propositadamente para todos que gostam de ler e ver merdinhas às escondidas e fazem parte da legião dos espreitas, tácitos do relâmpago irracional, que mais cliques em vão produzem na Internet.

Oi... Vamos então ao diário:

------A habilidosa diversidade que se utiliza para esconder e fazer passar droga, esse «magnífico elixir» dos endeusados em decurso, está na razão directa da capacidade racional de cada indivíduo. É uma autêntica drogaria de ideias. Esconde-se e passa-se droga em peças de fruta, em troncos de madeira, em queijos, em caramelos, em calhas de fios eléctricos, no estômago, na vagina, no ânus e até dentro das pérolas falsas da gargantilha da Aninhas. Inclusive, um espanhol de 67 anos que se vestiu de bispo, foi apanhado num aeroporto com 9 quilos de «dela». Claro, impediram o aparente «benquisto clérigo» de continuar a sua heróica jornada para o céu. Ao céu só têm direito aqueles que sabem bem encurralar e manter os outros no inferno.
------Eu, diacho, se andasse agora ao redor dos 34 anos de idade, eu que fui de facto um empolgante mergulhão nos banhos da juventude, seria hoje um exímio, experiente e bem posicionado corretor de drogaria com curso de química no campo da botânica. Onde esconderia eu a droga? Oh... No banco, claro, inspirado no eloquente mote da «asa é». E fumaria charuto, evidentemente, charuto fidelíssimo com certificado legal e tudo.
------Leio algures que «cocaína e sexo são requisitos obrigatórios em festas juvenis». Em Lisboa, sob a auspiciosa auréola da filosofia que outrora impedia os jovens super dotados de comerem feijão, as mulherzinhas e homenzinhos (12/16 anos) reunem-se às dúzias seleccionadas para entrar numa daquelas «com muito andamento». Arma-se então uma festinha-festival que começa ao cair da noite e vai até ao renascimento do astro-rei. Uma maravilha!
------Descreve a jornalista que se inicia a farra com a fruíção de uma charrada passa-passa entre uns brindes com bebidas energéticas à base de cafeína e de vodca. Segue-se a esplendorosa cerimónia da coca e as mulherzinhas dançam, rebolam-se, atordoam-se e, de capecete encefálico a levitar, começam a espalhar a roupinha toda pelo chão. Entretanto, os homenzinhos, juntam-se à «coreografia erótica», uns, prendendo voluptuosas poses com a óbvia maquineta, e outros, os mais ousados, vão preparando as camisinhas com todos os sabores, hortelã, morango, banana, baunilha e chocolate. É um regalo de excelsas gostosuras e ávidos paladares.
------No auge, logo que a insustentável inexplicação se aloja nas mentes em transe, aos pares e aos trios dirigem-se para os quartos. Daí a pouco a música dos ais deliciosamente gemidos ouvem-se ecoar nas paredes do salão vazio em tranquíla penumbra. Nesta altura, eu que tinha estado de imaginada vista assestada no buraco da fechadura, presumo estar deitado no corredor, mas deveras, palavra, sequer sei aonde estou...
------Interrogo-me: mas que inconveniente malefício há para instaurar a critica e impedir que a juventude se divirta e goze a vida como bem lhe apraz? Ah... É, é isso, é o Adamastor!... Há que passá-lo, nem que seja a dormir!...



ANTECEDENTES = 5/8 - 9/12 - 13/16 Retorno à Entrada